Uma (Des)Ordem de Ideias

Hoje notei uma coisa curiosa (ou talvez não, dada a frequência com que acontece): o Senhor Bastonário da Ordem dos Advogados, em declarações a um telejornal da hora do almoço, disse que aplaudia a decisão do Governo em retirar do Orçamento de Estado aquela norma sobre a obrigatoriedade de concessão de uma bolsa aos Estagiários; tendo dito ainda que tal proposta nunca teria feito sentido nenhum, na certeza de que os Advogados Estagiários – além de tudo aquilo que já soube, no passado, verborrear acerca deles – é que gastam tempo e recursos dos Escritórios dos Patronos.

Ora, tem azar o Senhor Bastonário – recandidato ao lugar – pelo facto de a minha memória – que também uso enquanto seu eleitor – ser quase fotográfica. Na verdade, foi precisamente na semana passada – mas já no período da noite, a seguir ao jantar – que o Exmo. Senhor Bastonário – recandidato ao lugar -, no programa “Prós e Contras”, defendeu EXACTAMENTE O CONTRÁRIO!

Quando criticado pelos outros dois Candidatos, com especial destaque para o que disse o Dr. Luís Filipe Carvalho, acerca do facto de a Ordem dos Advogados nada ter feito para ser ouvida sobre tal matéria encapotadamente contida na Lei do Orçamento, o Exmo. Senhor Bastonário – recandidato ao lugar – soube dizer que aquele não seria o momento certo para o fazer, na certeza de que o que ali estaria era uma autorização legislativa ao governo para regular tal matéria.

E disse ainda mais: que a lei ou decreto-lei a surgir assim contaria com o contributo da Ordem dos Advogados, na eventual fase de discussão pública, e que poderia vir a tornar-se uma boa lei. E porquê? Porque o Exmo. Senhor Bastonário, recandidato ao lugar, soube dizer – no seu jeito de denúncia pública, quanto a mim, inconsequente – que existia nos tais “grandes escritórios” trabalho quase escravo dos Colegas não-sócios.

Ora, é certo que poderia sempre o Exmo. Senhor Bastonário, recandidato ao lugar – caso eu merecesse alguma importância para ele, enquanto eleitor (sendo certo que só sabe é encher-me a caixa de correio electrónico com panfletos e artigos cheios de ideias, quanto a mim, avulsas e sem exequibilidade ou visão de futuro) – contrapôr-me que, no tal debate televisivo, ele quis, lá está, apenas focar o caso de Colegas Associados, já Advogados e, não – porque o alarme traumático começa a soar – aqueloutro dos Colegas Estagiários.

Contudo, o normativo objecto da discussão diz respeito, segundo o que se leu, precisamente, aos Advogados Estagiários, não sendo claro que consagre também a hipótese de os Advogados associados de Escritórios ou Sociedades, poderem vir a ser contemplados com a tal bolsa remuneratória.

Ou seja, no meio de tudo isto, a mim, só me resta uma pergunta: até quando, Senhor Bastonário, recandidato ao lugar, vai querer lançar a desordem de ideias e de argumentos, pretendendo esconder na bruma de remissões literais complexas apenas uma única verdade: o seu total desnorte programático?


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